
Tem gente que chega para ficar, tem gente que vai para nunca mais, tem gente que vem e quer ficar, tem gente que vai e quer voltar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem. (Fernando Brant)
sexta-feira, 29 de julho de 2005
Ausência

terça-feira, 26 de julho de 2005
Para a Isabella...

Para a Isabella, em forma de agradecimento pelos postais que me avivam as memórias de Paris e trazem ao coração e aos lábios uma canção de Brel...
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segunda-feira, 25 de julho de 2005
Percursos à beira Tejo - III
domingo, 24 de julho de 2005
Percursos à beira Tejo - II


fotos: josé carlos
sábado, 23 de julho de 2005
Percursos à beira Tejo - I

Percurso à beira Tejo, seguindo o velho caminho da sirga que parte da Barca da Ameira do Tejo. Arte e manhas de um povo a quem a dureza da terra deu engenho e talento para domar a natureza, à força de bagos de suor escorrendo de rostos tisnados e barrigadas de sopas de pão e ervas, ali onde o granito se funde com o xisto com o rio por testemunha. Ou a prova de que a necessidade é a mãe da invenção. E hoje, no tempo da omnipresente tecnologia, o gado morre de sede e o trigo mirra nos campos à míngua de àgua e o rio aqui tão perto...
quinta-feira, 21 de julho de 2005
Para que se não esqueça! - Parte IV
Quase imperceptivelmente o tempo vai aquecendo e uma madrugada sussurra-se por todo o navio, Chegamos, chegamos a áfrica, e todos se levantam para ver essa terra remota e estranha que lhes dizem também ser portugal e estar ameaçada. Ameaçada por um bando de pretos mal agradecidos, cães que mordem a mão do dono, de quem os tirou da barbárie e lhes levou deus e civilização, os turras. Cuidado com os pretos, dizem-lhes, Cuidado com os pretos, não lhes dêem confiança que qualquer filho da puta dum mainato pode ser um turra disfarçado, um espia. Se abusarem arreiem-lhes e cuidado com as pretas, são todas umas putas, animais com cio, cadelas saídas, ponham-se a pau com os esquentamentos.foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Para que se não esqueça! - Parte III
Quanto dura a viagem, Um mês, dizem os lavradores sem enxada, riem-se os pescadores sem redes, mais feitos a estas coisas do mar, só o barco é maior que as ondas são as mesmas, Quinze dias com escala na madeira. Quinze dias de balanço, para cima e para baixo, para cima e para baixo, quinze dias de enjoo e diarreia, até todo o navio cheirar a merda e todos os homens cheirarem a vómito, suor e punheta, pela primeira vez irmanados oficiais, sargentos e praças, a outra será por entre o ondular do alto capim e os balanços do unimog, quando o medo for a causa da náusea e da diarreia, que todos nascemos e morremos do mesmo modo e nas misérias da carne todos os homens são irmãos. Para matar o tempo, que não é ainda tempo de matar, jogam-se intermináveis jogos, inventam-se maleitas, forjam-se acidentes, em tempo de guerra não se limpam armas, qualquer estratagema serve se o resultado dor baixar à enfermaria, ou, derradeira esperança, voltar a casa como inapto, ou tão só não ir para o mato, esse matos de que os velhinhos falam com mistério e sobranceria, Como é o mato, conte lá nosso primeiro, Vocês depois vêem, para se borrarem de medo já chega quando lá estiverem...
continua...
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foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra
Para que se não esqueça! - Parte II
Meia-volta, volver, ordinário-marche, sobe-se o portaló do navio, niassa, vera-cruz ou outro qualquer, tanto faz, já se vai enchendo o bojo do monstro que vomita rolos de fumo cada vez mais grossos e negros, anunciando a partida. Nos conveses amontoam-se os corpos, luta-se por chegar à amurada, para se chegar a um último adeus aos que ficam..
continua...
foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra
terça-feira, 19 de julho de 2005
Para que se não esqueça! - Parte I
São de toda a parte, de remotos lugares esquecidos de deus e dos homens, pequenos pontos negros no mapa da nação que os chama a defender o império, angola é nossa, portugal do minho a timor. Ao longe todos iguais, pescadores sem redes, lavradores sem enxada, mole esverdeada encurralada entre o rio e as grades e a polícia militar e a banda que toca marciais marchas para elevar a moral.Boina castanha cobrindo o cabelo rapado, mochila às costas, cigarro nervoso queimando as pontas dos dedos, sorriso forçado para benefício dos que ficam, mãe, pai, namorada, amigos. Não chore mais minha mãe, vai ver que não me acontece nada, Leva este santinho que o senhor abade benzeu, não te esqueças de rezar o terço e que deus te proteja e guarde meu filho, Espera por mim meu amor, quando voltar casamos, Promete que me escreves todos os dias e vê lá não me esqueças tu, Cuide das vacas meu pai, Dá cá um abraço rapaz, Adeus rapazes, vocês tiveram sorte, Sorte tens tu pá, dizem que as pretas se pelam por um branco e são boas como o caraças.
O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, ao longe discursa uma farda, pelo menos parece só uma farda, não se vê o homem dentro dela, só o faiscar das medalhas e o dourado dos galões. Os altifalantes gritam palavras, valorosos infantes, dom afonso henriques, dom nuno álvares pereira, os valentes de mouzinho, os heróis de la lys, pátria, nobre missão, se necessário com o sacrifício da própria vida.
segunda-feira, 18 de julho de 2005
Bayete Mandela!

Monotonia

sábado, 16 de julho de 2005
Uma vez mais embarquei no sonho antigo.

Viva a República!

Uma Avó.

Era uma vez uma anciã a quem muitas noites de luar tinham embranquecido os negros cabelos da juventude. Essa senhora tinha um neto e esse neto um amigo. Só assim, um amigo, porque os amigos não necessitam de adjectivos. O neto visitava amiúde a avó, e sempre que o fazia, o amigo acompanhava-o. Como boa avó que era, e apesar de o neto ter já entrado na casa dos trinta anos, sempre que havia visita, entregava-lhe uma nota para "beber qualquer coisa na viagem", como ela dizia. O amigo era recebido como se da casa fora, com franqueza e carinho,
E um dia, a avó virou-se para o amigo e disse-lhe: - Toma, esta é para ti.
O amigo recusou, que ideia, não era próprio, não era necessário. Afinal, o vencimento mensal do amigo ultrapassava em várias vezes a magra reforma da avó.
A avó insistiu, o amigo contrapôs que não era seu neto, que não se justificava, e ela continuava a insistir.
Para não ofender uma ancião orgulhosa na sua modéstia, aceitou. E desde então, sempre que encontrava a anciã, dela recebia primeiro um carinhoso beijo e um abraço, dados com um sorriso no rosto enrugado e a expressão "Olha o meu neto Zé!" e na despedida a respectiva nota "para a viagem"
Esse amigo era eu e a anciã a minha Tá Rosaira (Rosário). A Tá Rosaira foi hoje sepultada, aos 94 anos de idade, eu perdi uma avó que me adoptou e escrevo esta simples homenagem de lágrimas nos olhos.
quinta-feira, 14 de julho de 2005
Ilusão de Óptica

quarta-feira, 13 de julho de 2005
Metáfora

Metáfora sobre o Outono e a Vida, alto relevo em tons de castanho à beira-mar, no pressuposto de que uma imagem vale mais que mil palavras.
Poesia feita fugaz momento retratado, enquanto outra onda não chega e lava o areal, que o mar é pragmático e o mundo não cessa de girar só porque um fotógrafo se enamorou de um instante no tempo e no espaço.
terça-feira, 12 de julho de 2005
Ícaro

Construí a vida que tenho por sobre os escombros de sonhos desfeitos. Como as novas civilizações que constroem por sobre os escombros das que as antecederem.
Aí como em mim é preciso escavar camada após camada, isolar substrato por substrato os vestígios de antanho. Aí como em mim encontram-se fragmentos de coisas que um dia foram úteis ou belas ou tão só frívolos adornos. Restos de vidas passadas, restos de gentes passadas, restos de sentimentos passados.
Como se constrói sobre os escombros muitas vezes ainda envoltos na núvem de pó da derrocada recente? Como se consegue calcar o chão e seguir em frente?
Digo-vos como. Só existem dois modos: com a cegueira da força ou com a força da cegueira - somos fortes e isso faz-nos avançar como se o amanhã não existisse ou fechamos os olhos e deixamo-nos ir sem medos porque não vemos os obstáculos que se atravessam à nossa frente.
Repetidamente somos larva, ninfa e borboleta. Nascemos e morremos mil vidas numa só.
Somos Ícaro num incessante refazer de asa.
foto: José Carlos
segunda-feira, 11 de julho de 2005
Quando for grande quero ser jornalista!

Acabo de ver aqui o vídeo de Diana Andringa sobre o célebre e malfadado "arrastão", perdão, pseudo-arrastão, aliás, pseudo-não-sei-o quê. De arrastão a traneira e daí a barquinho do Campo Grande foi um ápice!
E caramba, quando for grande quero ser jornalista!
Goste-se ou não da jornalista Diana Andringa (e eu gosto), critique-se ou não o meio de que se serviu para dar voz às suas opiniões, tenha este vídeo ou não fins puramente políticos, estou-me olimpicamente borrifando para o assunto e chego sempre à mesma conclusão: que grande peça jornalística, das poucas verdadeiramente dignas desse nome no meio do aparente ensadecimento colectivo dos media portugueses ( a silly season é como a Páscoa, tem data flutuante - a deste ano já começou?).
Estou ansioso por ver o debate que o Clube de Jornalistas vai organizar.
Pegadas

Cheguei de madrugada como os malfeitores, de gola levantada sobre a nuca, o olhar furtivo, a andar passos de gato. O sussurro do vento segreda-me rebates de consciência enquanto caminho pela praia deserta: - Não vás, não vás, não vás...
Estou de volta à praia onde tomei o meu último banho da meia-noite, o banho que lavou os últimos resquícios da minha inocência. Nessa outra madrugada dei e recebi.
Hoje sigo de tronco inclinado para a frente, punhos fechados, a saborear o gosto salgado da névoa que me envolve.
De mãos vazias, de mãos há muito ocas de sentir, há muito frias do calor de outro corpo.
Qe me trouxe o alvorecer dessa outra madrugada? Um nome, um número de telefone, uma morada, escritos numa agenda a lápis, debaixo do título "Férias-80", na página a seguir a "Férias-79" e a outros nomes que já não lembro, a outros telefonemas que nunca fiz, a outras cartas que nunca escrevi.
E hoje regressei depois de muitos verões.
- Não vás, não vás, não vás...
É novamente o vento ou a memória de palavras ditas baixinho e que a areia em que fizeram sua cama repete como um eco?
Mas eu fui. E agora, o que me sobra?
Sobram as deléveis pegadas que marcam o areal a que dou costas e me perseguem com a tenacidade da sombra.
Se tu fores ver o mar (Rosalinda)
domingo, 10 de julho de 2005
Apelo
O capricho dos deuses
e o mar revolto
atiraram-me náufrago
para a ilha solitária
que a ninfa habita
divina e perfeita
tecendo e destencendo
a sua enredante teia
da minha humana condição
me vou esvaindo
quero a fuga urgente
resgatem-me, libertem-me
quero o erro e a dúvida
quero a desgraça e o precipício
quero a dor e a morte
quero a humanidade
foto: José Carlos
sábado, 9 de julho de 2005
Amigos

Os amigos são a família por nós escolhida. Nada nos é imposto: conhecemo-los e aceitamo-los como são. E não é que do mundo virtual surgem amigos reais?
A esses novos amigos quero agradecer a força e o ânimo que me deram para começar esta viagem. É por eles que espero para me acompanharem nesta viagem, para embarcarem a bordo sempre que possível. O portaló estará sempre disponível.
Muitos são os amigos, mas para alguns vai um agradecimento especial:
- Isabella, a tua Chuinga estará sempre no bolso de trás do meu calção de mufana, juntinho à fisga;
- Gil, o teu Xicuembo protege-me;
- João, a tua Água Lisa lava a minha alma;
- Madalena, contigo choro e logo bebo nova inspiração;
- Mitsou, as tuas Tijolices são parte dos meus alicerces;
- Ni, na tua Praia espero novas marés;
- Zé Paulo, no Sem Técnica aprendo a tàctica;
- Théo, a tua Sebenta é a minha cábula;
- Sãozinha, a tua poesia faz-me sorrir quando estou cinzento.
"...e é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz bom proveito..."
Sérgio Godinho
a nau está de partida
A nau está de partida. A maré está de favor, o vento propício, o sol brilha no horizonte para me orientar e à noite a Estrela Polar será o meu guia.
Inicio a viagem sozinho, só com uma mala de porão. Não sei onde e quando serão as escalas, muitos menos o destino. Na mala levo o essencial, coisa pouca, memórias quase só. Pelo caminho chegarão amigos, com novas ideias, emoções, notícias. E com isso a mala ir-se-à compondo....
foto: INMAGINE
