segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Espelho partido...


Parti o plácido espelho da minha existência,
enquanto o cão ladrava no quintal
a um atrevido gato que bufava
e o arroz cozia em lume brando,
em cinquenta e sete estilhaços maiores bem contados
fora os pedacinhos mais pequenos
que se esconderam debaixo do sofá,
e agora vejo cinquenta e sete eus
que me olham de sobrolho franzido
e um abanar de cabeça,
não sabes pá que partir espelhos
dá sete anos de azar,
isto para os espelhos vulgares
imagina agora o espelho da existência,
cinquenta e sete vezes sete quanto dá,
fora os pedacinhos mais pequenos
que se esconderam debaixo do sofá,
nunca soube fazer contas de cabeça...
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texto/foto: josé carlos

sábado, 27 de agosto de 2005

Dias cinzentos...


Por estes dias pousei a pena. As férias primeiro, no regresso destas a avassaladora modorra que me assaltou, têm-me mantido afastado da escrita. A musa é inconstante e caprichosa e nem sempre me concede o dom do seu diáfano toque. Mas um certo fastio e a necessidade de algum distanciamento e o repensar desta (quase) obrigação diária de escrever algo, também contribuiram para a ausência de inspiração. Não deixei de fazer a regular e prazenteira ronda pelos blogs do meu contentamento, mas até aí me abstive dos habituais comentários.
Escrevo desde muito novo, porque esse acto intímo me ajudava a espantar os meus fantasmas, porque me tranquilizava, porque às vezes tenho tanto guardado dentro de mim, algo que vai crescendo e ameaça asfixiar-me, que necessito de uma válvula de escape, preciso de extravasar ideias e sentimentos.
Mas a escrita, em mim, nunca foi algo fácil ou automatizado, nunca foi um ritual de periocidade certa, passeavam-se tranquilos os dias e as semanas sem que a mão levasse ao papel um único pensamento. Por outro lado, quase tudo o que escrevi mantive-o para mim, em cadernos que se foram acumulando pelos anos, nunca outros olhos que não os meus testemunharam esses devaneios e desabafos, com excepção das inevitáveis ridículas cartas de amor ( e "Todas as cartas de amor são ridículas...", não é Fernando?).
Assim, vejo-me perante duas novidades: a exigência de escrever regularmente e a responsabilidade de saber que agora existe alguém que me lê. A primeira novidade não constituiria grande incómodo, tenho na mala que desde há muito me acompanha manancial suficiente de escritos para colmatar os dias cinzentos, por vezes uma imagem necessita apenas de um breve comentário ou nem sequer isso, uma efeméride qualquer, e todos os dias há uma, serve para encher o monitor. Mas isso não me basta e aí reside o busílis.
Manter um blog como um acto narcisista e presunçoso não me interessa. Palmadinhas nas costas, de amigos simpáticos e generosos, mesmo quando escrevo banalidades, também não.
Quero que a minha escrita tenha sentido ou faça alguém sentir algo. Mesmo quando esse alguém sou apenas eu. Sou juíz e júri de mim próprio. Por cada texto que aqui deixei bastantes outros foram arrasados a um toque na tecla "delete". E esse dilema, a necessidade de todos os dias escrever algo que não fosse vulgar e comezinho, levou-me a este distanciamento.
Por outro lado, a temática da minha escrita é a um tempo infinita e limitada: infinita porquanto as suas fronteiras são as da minha imaginação, limitada porque muitos dos assuntos que me poderiam dar matéria para escrita diária me não interessam: a política, ou a pequena política corriqueira deste nosso Portugal, na melhor das hipóteses aborrece-me de morte ou dá-me náuseas, o desporto tem por nome futebol, sobre os incêndios está tudo dito e nada feito, as tricas e tretas dos colunáveis deixam-me indiferente, não me passa pela cabeça postar sobre o que leio noutros blogs, para isso servem os comentários que por lá deixo, e o túnel vai-se estreitando sobre a minha cabeça.
Esta reflexão, este clarear de ideias no meu cérebro, decorre já há algum tempo, e tem o efeito catártico de um desabafo. Deixei de sentir a obrigatoriedade da escrita diária, essa espada de Demócles que me oprimia e toldava. A tranquilidade chegou-me como as ondas nas marés baixas dos dias calmos.
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foto: josé carlos

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

A banda...


Estava à toa na vida, o meu amor me chamou
Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor
A minha gente sofrida, despediu-se da dor
Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor, de amor
O homem sério que contava dinheiro parou,
O faroleiro que contava vantagens parou,
A namorada que contava as estrelas
Parou para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou,
Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor
(...)
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou,
A moça feia debruçou na janela,
Pensando que a banda tocava pra ela, pra ela,
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu,
A lua cheia que vivia escondida, surgiu,
Minha cidade toda se enfeitiçou,
Pra ver a banda passar, tocando coisas de amor
Mas para meu desencanto, o que era doce acabou,
Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou,
E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor
Depois da banda passar, cantando coisas de amor, de amor,
(...)

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Chico Buarque de Holanda, A Banda, 1966
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foto: josé carlos

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Fechei a mala...


Fechei a mala e fiz-me ao caminho. Rumo ao norte, ao verdejante e farto norte do final da minha infância, onde a água serpenteava em frescos murmúrios pelas encostas até engrossar ribeiras onde no verão procurava refrigério do sol. Por estes dias o negro e o cinza uniformizam a paisagem e até a água escasseia, num lamento de velhas de negro que juram por todos os santos que nunca viram as fontes deitar tão pouco.
Dirigi-me a Penude, uma freguesia nas proximidades de Lamego, terra dos meus antepassados e onde residem meus pais, a pretexto das Festas de Nª Senhora do Rosário do Outeiro de Penude, a 15 de Agosto. É a época do ano em que revejo os que resistem por lá e os amigos que como eu se fizeram à vida e estão pela capital e por essa Europa fora, e familiares que, a menos que haja casamento, baptizado ou funeral (lagarto, lagarto, lagarto...!), só cumprimento em épocas festivas.
A23, IP5, A24, siglas da nossa modernidade, que por ora significam caminhos rápidos e sem portagens, enfim, rápidos é força de expressão, em alguns deles as constantes obras levaram-me a circular a uma velocidade média de 60 km/h.
Por um lado agrada-me chegar ao meu destino num terço do tempo que costumava levar há 30 anos, por outro lado, e todas as coisas têm um outro lado, sinto uma certa nostalgia pela lentidão das viagens desse tempo, de passar por terras que agora antevejo mais ou menos ao longe, dos restaurantes de beira de estrada (que saudades de parar na Mealhada!), dos farnéis cuidadosamente preparados de véspera e saboreados em aprazíveis recantos com sombra e fonte e que existiam, cuidados por homens como o meu avô materno, Ti Zé Cantoneiro, de poucos em poucos quilómetros. Coisas que conto ao meu filho e que ele não entende, porque só conhece quilómetros atrás de quilómetros de alcatrão negro em via dupla ou tripla e estações de serviço.
Foi nesse lento e por vezes desesperante viajar que tive o primeiro contacto com locais que nunca mais visitei: Vila Franca de Xira, Alcobaça, Caldas da Rainha, Batalha, Leiria, Coimbra, Tondela, Viseu, quando me deslocava pela EN1 ou Ponte de Sôr, Castelo Branco, Covilhã e Guarda, quando a viagem era mais pelo interior.
Aproveitei estes dias para por em prática um plano antigo, aprofundar a pesquisa da árvore genealógica da família, que já vai em antepassados do início do séc. XIX, com algumas surpresas pelo meio, nomeadamente uns até agora desconhecidos "pais incógnitos" e até meios tios-avós de quem confirmei a existência, alguns deles ainda vivos.
Do pretexto da viagem pouco há a dizer: apenas que o número de pessoas que participam nos festejos, nomeadamente os mais jovens, é cada vez menor, a parte religiosa a ser a mais afectada, que os bailaricos sempre vão sendo concorridos. Outra coisa também mudou, esta para melhor: os arraiais de pancadaria que noutros tempos eram da praxe, aliás festa em que não houvesse porrada, resultante de bebedeira mal digerida, ciúmeira exacerbada ou rivalidade entre aldeias, não era festa nem era nada!
Dois irmãos do meu bisavô materno eram aliás conhecidos por bizarrias deste tipo: já com um grãozito na asa, olhavam um para o outro e lá vinha o comentário: "-Então não estreamos o buxo?" E um qualquer desgraçado era escolhido como vítima, de preferência um com cara para levar dois estalos e varapau na mão, desafiado por motivos fúteis, um encontrão simulado, um olhar de soslaio, e começava a luta. Depois, estreado o buxo, mais dois copinhos de três e ala para casa deitar vinagre nos vergões da bordoada!
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Glossário: buxo, cajado feito com a madeira muito densa e dura da planta do mesmo nome, da família das buxáceas.
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fotos: josé carlos

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Os muros



A História tem por vezes aspectos que me intrigam e surpreendem. Não que me devesse surpreender, a História não é mais que o diário de bordo do Homem e este é o animal da contradição por excelência. Vem este intróito a propósito de uma triste efeméride que hoje cumpre aniversário: a construção do Muro de Berlim. O "Muro da Vergonha" começou a ser construído a 12 de Agosto de 1961, filho da 2ª Guerra Mundial e da subsequente Guerra Fria, separando a nação Alemã, dividindo a Europa.
Por associação de ideias faço o seguinte percurso mental: Alemanha, 2ª Guerra Mundial, Judeus, Israel, Muro da Separação.
O que não entendo é o seguinte: os Judeus, a nação perseguida, a nação do Holocausto, lutaram e perseveraram até conseguir constituir o estado de Israel.
Por este ideal morreram milhares. O espaço que Israel ocupa foi obtido á custa do desalojamento de outros milhares, de outra nação, a Palestina.
O Muro da Separação divide agora estas duas nações. Não é estranho ser o povo Judaíco, o mesmo que foi perseguido e ostracizado, o que teve que lutar duramente para conseguir o seu espaço, que a custo aceita a existência do estado Palestiniano, quando deveria ser o primeiro a entender essa ânsia de existir?
E afinal quem se isola com mais este Muro da Vergonha: Israel, que assim se constitui em prisão ou a Palestina que fica de portas abertas ao mundo?
Outra vez estradas são cortadas, campos são divididos, famílias são separadas.
Como pode a lição do Muro de Berlim ser esquecida?
Não gosto de muros.

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Os dias da Aventura


De 15 em 15 dias, às quintas-feiras, chegava o furgão Citröen cinzento, de chapa ondulada, da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, carregadinho de livros e sonhos. 5 livros por quinzena, os de fita adesiva verde. Duras negociações com o Sr. Horácio, levaram-me a convencê-lo de que era rapazinho atinado e responsável e chegamos a um compromisso: 8 livros e as fitinhas poderiam ser amarelas e até mesmo laranja, sujeitas embora à prévia vistoria do censor. Nesse dia esquecia a bola, as escapadelas até ao rio e as cerejas do quintal do vizinho. Esperavam-me os tigres de Salgari, os vultos na névoa de Simenon, as travessuras de Twain, o futurismo de Verne, mas, acima de tudo, as aventuras de "Os Cinco", os meus preferidos por essa época.
Os dias da amizade para sempre a troco de uma chuinga. Os dias de escolher quadrilha e esconderijo, de arranjar lanternas e cordas, de procurar um cão sem dono para adoptar, porque sim, uma quadrilha precisa de um fiel amigo de quatro patas. Obscuras minas de água num ápice transformadas em misteriosas grutas a explorar, qualquer restinga de areia no meio do rio ganhava pergaminhos de inexpugnável ilha, todos os tostões amealhados para comprar laranjadas e gasosas e fazer piqueniques no meio da serra, entre urze e granito, longe de tudo mas principalmente longe do olhar dos adultos.
Os dias da aventura.
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Enid Blyton nasceu a 11 de Agosto de 1897
e faleceu a 28 de Novembro de 1968.


quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Capitão da Areia.



Completam-se hoje 93 anos sobre o nascimento de Jorge Amado, nome maior das letras brasileiras e da língua portuguesa. Nasceu a 10 de Agosto de 1912 na Fazenda Auricídia, em Ferradas, no Município de Itabuna, no sul do estado da Bahia.
Escritor interventivo, membro do PCB políticamente activo, conheceu os cárceres da ditadura brasileira e foi obrigado ao exílio em vários países da América Latina e da Europa por diversas vezes. Pelo incómodo que causava ao regime, os seus livros chegarm a ser considerados como material subversivo e retirados do mercado brasileiro. É autor de obras tão conhecidas como "Gabriela, Cravo e Canela", "Capitães da Areia", "Tieta do Agreste" ou "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Passeou a sua excelência por diversos géneros: romance, novela, poesia, teatro, conto, literatura infanto-juvenil e até guias de viagem. Está publicado em 48 línguas e 52 países.
Faleceu a 6 de Agosto de 2001.
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"... mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja para morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para a gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer."
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in "Os Subterrâneos da Liberdade", 1954
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Amei a canela e o cravo
o cacau e a vermelha seara
Amei um mar morto,
o agreste e os ilhéus,
Amei capitães meninos
e a milagreira tenda
Amei uma teresa
da guerra cansada
Amei dona flor
mas os maridos não
Amei a estrada do mar
e o amor de soldado
Amei bahia de todos os santos
e o mundo da paz.
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Amei Amado

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Chove...


Chove...
Mas isso que importa
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai,
uma melodia de silêncio
que mais ninguém ouve
senão eu.
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama...
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"Chove!" de José Gomes Ferreira
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Obrigado Guida por me dizeres de quem é o poema. Alguém mo deu à muitos anos e como me tocou foi andando para trás e para a frente com a minha tralha nas voltas que a minha vida deu. Quando tirei a foto foi a pensar neste poema e fiquei grato por ter a oportunidade de o poder divulgar.
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foto: josé carlos

Prenúncio de chuva.

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foto: josé carlos

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Memória


Ninguém me escreveu epitáfio ou ergueu memorial. Aqui jazo em águas rasas, ao sabor das correntes que me arrastam e de novo me trazem de volta à margem, num perpétuo movimento sem destino nem sentido.
Serviram-se de mim enquanto lhes aprouve. Nas mãos de barqueiro experiente transportei carga, animais e pessoas, ligando as duas margens do único rio que conheci e amei. De quantas despedidas e reencontros fui testemunha? Nem eu sei, recordo mais as segundas do que as primeiras, que a memória das barcas é como a dos homens, selectiva. Vivi as cheias e o desespero, as secas e de novo o desespero.
Construíram a ponte, e até na construção da minha ruína me acharam utilidade: transportei operários, areia, cimento, pedra.
E um dia o barqueiro não veio. Nem nos dias seguintes, até hoje. Fiquei de remos pendendo inúteis no bojo, a amarra desfazendo-se, perdi primeiro as cores que me decoravam, o meu nome lentamente desvanecendo-se, o madeirame estalando ao sol, abrindo brechas, a água tomando conta do meu corpo, e, quando veio a última cheia, finalmente soçobrei.
Só a minha proa permanece como lápide, muda testemunha da minha memória.
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foto: josé carlos - barca do Arneiro, Nisa.

sábado, 6 de agosto de 2005

Manhã


Eles sonham:
Um trabalhador sonha, baixando a picareta,
o suor transformado em cicatrizes pelo clarão.
Uma esposa sonha, dobrada sobre a máquina
de costura, entre o odor doentio
da sua pele aberta.
Uma empregada de bilheteira sonha,
as suas cicatrizes escondidas,
como pinças de caranguejo, nos dois braços.
Um vendedor de fósforos sonha,
com pedaços de vidro partido cravados no pescoço.
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Eles sonham:
Que através de um elemento obtido
a partir da pechblenda e da carnotite,
Mediante uma interminável cadeia de energia,
Desertos estéreis sejam transformados
em campos férteis;
Canais brilhantes corram em redor da base
de montanhas que se desagregam,
Sob sóis artificiais nos desertos do Árctico.
Que sejam construídas cidades e vilas de ouro puro.
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Eles sonham:
Que bandeiras festivas tremulem
à sombra das árvores, onde os trabalhadores repousam
e as lendas de Hiroshima
são contadas por lábios suaves.
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Eles sonham:
Que esses suínos com forma de homem
que não sabem como utilizar o poder
do centro da Terra senão para a carnificina,
Apenas sobrevivam em livros ilustrados
para as crianças.
Que a energia de dez milhões de cavalos-vapor
por grama, mil vezes mais forte
que um poderoso explosivo,
Passe do átomo para as mãos do povo,
Que a colheita rica da ciência
Seja levada, em paz, ao povo
Como cachos de uvas suculentas
Húmidas de orvalho
Apanhadas
Ao amanhecer.
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O poema "Manhã" foi escrito por Sankichi Toge, um sobrevivente da explosão de Hiroshima, que faleceu em 1953, com 36 anos.
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foto: Inmagine

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Percursos à beira Tejo - IV



Continuando a subir o Tejo, passado o remanso da Barragem do Fratel, a paisagem surpreende-nos com o rasgão das Portas de Ródão, o rio a romper por entre dois imponentes blocos de pedra. Aqui terminava a navegabilidade do Tejo, quando este era ainda um canal de comunicação entre o litoral e o interior.
O penhasco está ali, desafiante, e a velha centelha que me move leva-me a aceitar o desafio, a iniciar a escalada, em busca dos ninhos de grifo lá no alto.
Tarefa de respeito, escalada livre, sem cordas, a solo, câmara, mochila e poncho às costas, a rocha molhada que se fragmenta, os grifos a rondarem, curiosos acerca de quem invade os seus domínios, mas o desejo sobrepõe-se à razão, quero ver os grifos de perto, sentir o vento nas suas asas, ouvir o seu grito de senhores dos céus por estas paragens.
Atingi o cimo do penhasco após 45 minutos de escalada, exausto e completamente molhado, mas a paisagem que avisto e a tranquilidade que me rodeia compensam o esforço.
E depois, a descer todos os santos ajudam...
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fotos: josé carlos

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

A festa foi linda, pá!


A festa foi linda, pá!
Estou dorido, meio zonzo das horas de sono por recuperar e ainda meio afónico, depois de 5 dias de muita agitação. De toda a festa retenho acima de tudo três momentos:
- o ambiente de camaradagem e solidariedade que se viveu na tasquinha da INIJOVEM, onde estive a colaborar: voluntariado absoluto para recolher fundos que permitam à Associação desenvolver o meritório e insubstituível trabalho com a juventude de Nisa. Que orgulho por pertencer a esta Associação!
- um comentário de um amigo do meu filho - e por ele recontada com orgulho(?) - que pela primeira vez se cruzou comigo na noite, ele com os amigos dele, eu com os meus, na Tenda da Música, onde a batida era forte, na onda trance e house: "- O teu pai é cota, mas dá-lhe bem!"
- last but not least, a visita de alguns amigos, e isso foi mesmo o melhor da festa! Pessoas que saltaram do mundo virtual para a minha vida e que nela vão deixando a sua marca. Obrigado por terem vindo!