terça-feira, 30 de março de 2010

Questão de posturas


O estabelecimento de dormidasepequenoalmoço de que sou proprietário recebe, vez em quando turistas, mais amiúde excursionistas, e, com alguma regularidade, trabalhadores de diversas áreas, temporariamente no Concelho. A todos, é mesmo ponto de honra, faço questão de dar a conhecer o nosso património, a nossa gastronomia, os nossos eventos.

Desde que me dedico a este negócio, insisti por diversas vezes com a Câmara Municipal de Nisa, por correio electrónico e de viva voz, junto dos responsáveis pela área respectiva, que me fizessem chegar toda a informação disponível de interesse para o Turismo: cartazes de eventos, folhetos temáticos, a Agenda. Esse meu esforço tem sido infrutífero: o material que disponibilizo aos meus clientes é por mim recolhido nas instalações da CMN. Devo dizer que recebo por correio electrónico a informação referida, mas em suporte papel, para exibição e distribuição, nada me chega às mãos. Ao mesmo tempo, vejo que algumas dezenas de Agendas vão, todos os meses, parar à reciclagem sem que ninguém as tenha lido, e vejo ainda cartazes espalhados por inúmeros estabelecimentos do Concelho, de duvidosa eficácia em termos de divulgação junto de quem nos visita.

Nem todas as Câmaras Municipais procedem assim: recebo regularmente folhetos e cartazes de Municípios vizinhos, como sejam Castelo de Vide ou Portalegre, e de outros mais distantes, como Idanha-a-Velha, Ourique ou Elvas. Acabo de receber, da Câmara Municipal de Fronteira, alguns folhetos para distribuição, referentes a um evento que irá decorrer nos dias 3 e 4 de Abril, onde constam a Reconstituição Histórica da Batalha dos Atoleiros, um Torneio Medieval e uma Feira Medieval. Outros Concelhos, bem próximos de nós, organizam ao longo do ano eventos diversos, que vão contribuindo para atrair visitantes e atenuam certa sazonalidade turística.

E a Câmara Municipal de Nisa? Que eventos tem preparados para atrair turistas no período de Páscoa que se avizinha? E para o Verão, quando milhares de pessoas, nacionais e estrangeiras, cada vez mais fartas de sol e mar, deambulam por esse país fora, em busca de actividades diferenciadas? Foram-se a Bienal da Pedra e a NISARTES deste ano, esta última aparentemente substituída por iniciativas locais, que por ora desconheço. Serão talvez iniciativas como as que tivemos no animado Verão de 2006, alguns agrupamentos musicais, em confrangedores espectáculos sem público, na Praça da República.

Criou-se um cesto, o Complexo Termal da Fadagosa de Nisa, e espera-se agora a "Galinha dos Ovos de Ouro" da fábula. Mas isto, digo eu que "é mais bolos", não será pôr os ovos todos no mesmo cesto? Deve ser uma questão de posturas.
.
imagem daqui:
www.batalhadosatoleiros.com

Caça às bruxas

Volto ao assunto da pedofilia, desta vez a propósito das declarações ontem proferidas pelo Bispo de Lisboa, Carlos Azevedo, que após ter assumido que os casos de pedofilia cometidos por membros do clero são causa de "vergonha" para Igreja, descrevendo-os como "falhanços" de alguns dos seus membros, acrescentou ainda que "as pessoas estão a perceber que esta campanha, (...) se transforma quase numa obsessão, numa caça às bruxas(...)".

Concordo que certa imprensa, com uma linha editorial que privilegia assuntos de "faca e alguidar", tem dado particular destaque a este tema, com sórdida minúcia, mas daí a falarmos em perseguição ao Papa e em "caça às bruxas" vai uma grande distância.

E de novo me incomodam as declarações de um alto dignatário da Igreja Católica portuguesa: então e a campanha de silêncio e ocultação activamente promovida pela sua Igreja, durante largos anos?

Termino, dizendo apenas que "quem tem telhados de vidro, não atira pedras ao do vizinho"!
PS: comprovando aquilo que disse em crónica anterior sobre este assunto, acerca do cuidado para não tomarmos "a nuvem por Juno", confundindo acções de determinados indivíduos com a Igreja a que pertencem, e do facto de não ser este um problema das Igrejas em geral e da Igreja Católica em particular, mas da sociedade, li hoje artigos de jornal que apontam o dedo a membros de outras confissões que não esta, nomeadamente a Igreja Ortodoxa e duas Igrejas Protestantes.

terça-feira, 23 de março de 2010

Caminhos do Turismo


Em 2007, entrou-me pela porta do estaminé de dormidasepequenoalmoço de que sou proprietário um indivíduo, na casa dos sessenta e alguns, aspecto fatigado e cara de quem estava precisar de um bom banho e muito descanso. Despachado o costumeiro “do you speak english” e o registo, foi-se o agora cliente, com a promessa de voltar mais tarde, pois necessitava de algumas informações.
Ainda nesse dia, fiquei saber que o senhor se chamava Herman Hass, alemão, peregrino a caminho de Santiago de Compostela. E de quantas informações precisava ele! Por onde passava o Caminho por estas terras, onde comer, onde dormir mais adiante, horários de comboios, pormenores sobre história e património da região. Estivemos cerca de cinco horas à conversa, enquanto lhe ia fornecendo todo o material de que dispunha, textos, mapas, traduzindo uma coisa aqui e outra ali.
Fiquei também a saber que estava a percorrer o Caminho enquanto ia compilando material, para mais tarde escrever um guia de viagem. Pediu a minha ajuda para reconhecer o Caminho no Concelho de Nisa (informei-o de que haveria não um, mas três), e lá fomos nós ver da Vereda da Sardinheira, da ponte romana próxima da Capela de Nª Sª da Graça, do caminho velho entre o Pé-da-Serra e Vila Velha de Ródão. Partiu passados três dias, e durante o resto desse ano fomos trocando “e-mails” regularmente, com mais pedidos de ajuda, a que fui respondendo dentro das minhas possibilidades.

Em 2009 Herr Hass regressou. Desta vez vinha confirmar as informações compiladas em 2007, pois uma editora aceitara publicar o seu manuscrito. Colaborei de novo como pude e, no início de 2010, tive o prazer de receber pelo correio um exemplar autografado pelo autor, que me fez ainda o favor de me dedicar um agradecimento especial no final da obra, de seu título “Portugal Spanien: Jakobsweg Ostportugal – Via Lusitana – von der Algarve nach Orense”.
Ontem chegaram a Nisa os primeiros frutos deste trabalho: dois peregrinos holandeses, casal simpático, ambos reformados. Curiosamente, recebi esta manhã um e-mail da Suíça, com uma reserva de mais dois peregrinos para o mês de Junho.

Não creio que este livrinho vá trazer a Nisa hordas de peregrinos: poderá trazer algumas dezenas por ano, que terão de permanecer no Concelho por, pelo menos, uma noite, contribuindo assim para a economia local. Não sendo muitos, não serão certamente de desprezar.
Considerando este facto, bem como algumas reclamações/sugestões que recebi deste primeiro casal, nomeadamente no que à ausência de sinalética diz respeito, bem como do sofrível atendimento prestado no Posto de Turismo (em contrapartida só teceram elogios ao falar da simpatia e disponibilidade das nossas gentes), não seria possível a nossa Câmara Municipal dedicar algum tempo a este assunto? Já sei que não há dinheiro, tantas vezes já ouvi a resposta. Mas mais uma vez digo (água mole em pedra dura…) que muitas vezes não se trata de dinheiro mas de sensibilidade para esta e outras questões. Custará assim tanto o Posto de Turismo apetrechar-se com algum material, impresso ou fotocopiado, de apoio específico aos peregrinos a percorrer o Caminho de Santiago? E, utilizando um molde, pintar ao longo do troço do Caminho que atravessa o nosso Concelho, algumas vieiras, símbolo do apóstolo? Não me parece que seria esta despesa a levar a CMN à bancarrota. De novo aqui deixo um desafio. Assim haja alguém que ouça, delibere e mande fazer.

segunda-feira, 22 de março de 2010

"Não temos conhecimento oficial"

Tenho andado muito ocupado, o que se reflecte na minha produção no blogue, mas não ando por isso menos atento.

Veio recentemente a lume a informação de que 10 padres, entre os anos de 2003 e 2007, teriam sido indiciados por abuso sexual de menores, vulgo pedofilia. Não foi revelado se contra estes foi deduzida acusação ou, tendo havido julgamento, qual a sentença aplicada. Questionado sobre este assunto, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Pe. Manuel Morujão, disse em entrevista à RTP que não havia conhecimento oficial deste facto. Não temos conhecimento oficial. Repito a frase porque me ficou a girar na cabeça, sem que eu entendesse muito bem porquê, até perceber que ficaria muito mais tranquilo se esta fosse apenas “não temos conhecimento”, ponto final. Não ter conhecimento oficial soa-me a preciosismo semântico, a artifício retórico, soa-me a falso. Não acredito por um minuto que outros padres ou os bispos das dioceses dos indiciados não tivessem conhecimento da situação.

Num efeito de bola de neve em galopante crescimento, em todos os continentes, sucedem-se denúncias de abuso sexual de menores por parte de membros da Igreja Católica, na maioria dos casos com o conhecimento, quando não com a complacência, da respectiva hierarquia. Sendo a Teologia um assunto que me agrada, porque conhecendo as religiões melhor entendo o Homem, sou agnóstico convicto, nada tendo contra a Igreja Católica, contra qualquer outra igreja ou religião. Isto para dizer que é minha convicção profunda que este crime não é exclusivo de uma qualquer igreja ou credo: é um crime praticado por homens e mulheres, transversal a todas as sociedades e estratos sociais. Torna-se, do ponto de vista moral e ético, mais grave, porque viola princípios que as próprias religiões impõem aos seus seguidores, por maioria de razão aos que se enquadram nas respectivas hierarquias, e do ponto de vista legal, porque sendo pessoas que ocupam lugar de destaque e responsabilidade na nossa sociedade, a quem cabe quota-parte da educação da nossa juventude, se servem dessa posição privilegiada para cometer os seus crimes.

Algumas religiões são peremptórias ao impedir os seus clérigos de estabelecer relações carnais com outrem, obrigando ao celibato, enquanto outras o permitem. Mas este não é um problema que tenha a ver com o celibato: relações consensuais entre adultos são uma coisa, ainda que um deles ou ambos sejam membros do clero, relações, ainda que aparentemente consensuais, com menores, que pela sua imaturidade não possuem o necessário discernimento e resistência psicológica, são outra. As primeiras são assunto que apenas dizem respeito às igrejas, ao respectivo Direito Canónico, as segundas caem sob a alçada do Código Penal. Não é também um problema de orientação sexual, como muitos pretendem fazer crer, lançando uma vez mais o labéu sobre os homossexuais, numa confusão que me espanta, entre pedofilia e homossexualidade, como se não houvesse pedófilos heterossexuais.

As religiões que estudei, cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, aquelas que maior número de fiéis congregam no mundo, são solidárias quando se trata da protecção de crianças, veementes na condenação da pedofilia. Volto a frisar que este não é um problema de igrejas ou religiões. Só passa a sê-lo quando, num criminoso espírito corporativo, estas situações são encobertas, quando deveriam ser denunciadas, por quem detém a responsabilidade e o poder. Enterrar a cabeça na areia nunca foi solução para resolver problema algum. E quando a malha da peneira é do tamanho do mundo, que sol se pretenderá tapar?
.
imagem daqui: http://ateus.net/humor/cartoons/dia_da_pedofilia.php

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Não sou amigo nem fixe."



Vem esta crónica a propósito de uma notícia que ontem vi na televisão, a entrega do “Prémio Nacional de Professores”, atribuído a Alexandre Costa, professor de Físico-química da Escola Secundária de Loulé, que disse, falando da sua relação com os alunos, e cito, “não sou amigo nem fixe”. Continuou afirmando ainda: "Os meus alunos e eu temos uma relação de grande empatia no trabalho, mas não é de amizade. Não sou amigo no sentido em que eles são amigos dos seus colegas adolescentes. Sou tão amigo quanto um pai ou um educador pode ser".

A minha geração e as que se lhe seguiram foram marteladas, se me permitem o termo, com o conceito de que um pai deve ser amigo dos filhos e, acima de tudo, um “gajo porreiro”. Durante anos, numa tendência que me parece estar a mudar, ouvimos e lemos psicólogos e pedagogos forçando a passagem desta ideia. E à medida que nos fomos tornando pais, e quem tem filhos sabe da dificuldade que é educar um, porque nada nem ninguém nos prepara para isso, vamos aprendendo por tentativa e erro, alguns de nós esqueceram-se do que significa, na essência, ser pai ou mãe.

Naquelas costumeiras “sessões de esclarecimento” que tenho regularmente com o meu filho adolescente, em que ele reclama porque eu não lhe permito isto ou aquilo, ou porque não tem o direito a ter opinião, costumo dizer-lhe duas coisas:

Primeira - Cá em casa não vigora a democracia. Vivemos em ditadura, e quem impõe as normas sou eu e a mãe. Tem direito a ter opinião, incentivo-o a emiti-la, mas nada me obriga a segui-la.
Segunda - A minha responsabilidade primeira para com ele é ser pai. Se nesse processo pudermos ser amigos, muito bem, se não, tanto pior.

Ser pai não é ceder a todos os caprichos dos nossos filhos, não é ficar com remorsos porque o ele ou ela nos disseram “o pai de fulano deixa e tu não”, não é estarmos na permanente dúvida, induzida pelas tais teorias de certos psicólogos e pedagogos, se o que fizemos está certo ou errado. Como em qualquer outra liderança, o caminho para o fracasso começa na dúvida e na hesitação. Devemos ser justos, incentivar e premiar, com palavras e gestos, mas devemos também ser firmes.

Não sabendo muito bem como agir, com o nosso tempo disponível para a família em clara diminuição, muitas vezes, e cada vez mais, sem a âncora que era a presença dos avós, alguns de nós pretenderam descarregar as suas responsabilidades nos ombros dos professores.

E caiu-se no ridículo de se esperar que o professor fosse pedagogo, psicólogo, amigo, pai. Disse em crónica anterior que ser professor é cada vez menos uma vocação e cada vez mais uma saída profissional como tantas outras, à procura do porto seguro que costumava ser a Função Pública. Retomo este pensamento para reforçar a ideia de que boa parte dos nossos professores não está hoje vocacionada para estabelecer e manter laços afectivos com os seus alunos. Mas ainda que essa predisposição exista, não é função do professor substituir pai e mãe: educar é, em primeiro lugar, responsabilidade e obrigação dos pais. Compete a estes a transmissão de valores éticos e morais fundamentais, do sentido de responsabilidade, de comportamentos e normas. Ao professor, apetrechado com competências pedagógicas e académicas, compete a transmissão de um conjunto de conhecimentos especializados, uma arte, uma técnica, que os pais não dominam, e que preparam os nossos filhos para a vida profissional. Tão só e nada mais do que isto.

Louvo a coragem deste professor que, contracorrente e sem receio, assim expôs a sua opinião e vivência pedagógica. Assim fizessem todos. E vai sendo tempo de certas teorias serem repensadas.
.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cego, surdo e mudo?

É comum, numa prática que, estou certo, não se resume a Portugal, a existência da chamada “disciplina partidária”. Quer isto dizer que o eleito por determinado Partido é obrigado, por força de instrução das cúpulas ou por decisão maioritária de militantes, a votar de acordo com essa instrução ou decisão, ainda que não seja essa a sua convicção pessoal.
Vemos esta situação no nosso Parlamento em todas as sessões legislativas: aquando da votação de assuntos de importância maior, principalmente tratando-se de questões fracturantes, alguns partidos, se não todos, indicam o sentido de voto aos seus Deputados.
Indo mais além, o PSD votou e aprovou, no Congresso que ontem terminou, uma alteração estatutária que impede os seus militantes, naquilo que já se tornou conhecido como a “lei da rolha”, de criticarem a Direcção do Partido nos 60 dias anteriores à realização de actos eleitorais. Esta proposta partiu de Pedro Santana Lopes, o que se entende, se pensarmos que enquanto líder do PSD e Primeiro-Ministro, o homem mais parecia um daqueles bonecos da Feira Popular a que se atiram umas bolas para ganhar um prémio, tanta era a cacetada que levava, de dentro do seu próprio Partido. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos.
Não se pense que estou aqui a criticar o PSD: “tanto se me dá como se me faz” o que os militantes do PSD, em sede própria e de acordo com os seus estatutos, decidem, concorde eu ou não. Mas não posso deixar de achar muito curiosa a reacção dos três candidatos à liderança do Partido, que durante o Congresso e perante a apresentação desta proposta assobiaram para o ar, para no final virem dizer que não concordam com a mesma.

Quero chegar mais longe, ao que representa um Deputado, qual a sua ligação ao Partido e aos seus Eleitores, perante quem deve responder e com quem deve estar a sua lealdade.
Sabemos todos que os Partidos apresentam candidatos, por Círculo Eleitoral, às Eleições Legislativas. Esses candidatos, militantes ou independentes, subscrevem o Programa Eleitoral do Partido que os apresenta a sufrágio. Ou seja, todos os candidatos sabem, ou deveriam saber, que linhas orientadoras o Partido, através da elaboração de um Programa Eleitoral, apresenta ao eleitorado: se aceitam submeter-se a eleições por determinado Partido sabem exactamente com que linhas é que se cosem.
Por outro lado, depois de eleitos, os Deputados representam os eleitores do Círculo Eleitoral que os sufragou, devendo defender os interesses e opiniões dos mesmos.
Posto isto, e perante uma qualquer votação na Assembleia da República, que sentido de voto deverão os Deputados tomar: aquela que lhe é imposta pelo Partido, a que os seus eleitores desejam, ou a que lhes dita a consciência?

Tenho para mim que os Deputados estão para a Política como os Padres para a Igreja: quem não concorda com o celibato que não vá para Padre. As regras do jogo são conhecidas à partida. Vir, “a posteriori”, dizer que não se concorda com esta ou aquela imposição do Partido é enganar este e os eleitores. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
A relação entre candidatos e eleitores existe, em profusão, durante as campanhas eleitorais, em acções ensaiadas de modo a obter uma maximização da divulgação e construção de uma imagem. Findas estas, e depois de eleitos, que relação passa a existir, se é que existe alguma? Algum Deputado promove encontros regulares com os seus eleitores, de modo a ir auscultando as suas reclamações e anseios? Ou limitam-se a permanecer no seu lugarzinho na respectiva bancada e a carregar no botão, à ordem do Presidente da Assembleia, para votar a favor ou contra, nisto ou naquilo, consoante as instruções do Partido?

Creio firmemente que a obrigação primeira de um Deputado é para com os seus constituintes, não para com o Partido, ao sabor de interesses conjunturais. E acho no mínimo curioso que, numa altura em que quase caem “o Carmo e a Trindade”, num movimento subscrito por toda a Oposição, contra uma suposta interferência do Governo em alguns meios de Comunicação Social, cerceando assim a Liberdade de Imprensa, e em que tanto se fala em défice democrático, que todos os Partidos (o PS, por ora no Governo e com maioria parlamentar também já tomou atitudes idênticas, e certamente voltará a tomar, logo que volte à Oposição) não comecem por olhar para a sua própria casa, para os seus telhados de vidro: proibir um Deputado de votar em consciência, ou um militante de criticar a Direcção do Partido, não é uma séria e flagrante violação dos princípios democráticos? Deverão os nossos Deputados ser cegos, surdos e mudos?
.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O Estado da Nação, ou o último a sair que apague a luz


Vi ontem, como certamente terão feito muitos milhares de portugueses, a entrevista concedida á RTP pelo Presidente da República, Cavaco Silva.

Como é seu apanágio, refugiou-se em evasivas, em palavras ocas, aqui e ali entremeadas por algumas indirectas e um "lapsus linguae" que passou despercebido à entrevistadora e não foi por esta aproveitado. Ficamos todos a saber que já foi Primeiro-Ministro, que é economista e professor e que é um homem de honra, algo que não questiono minimamente, mas que não basta para fazer de Cavaco Silva um bom Presidente da República. Não se pronunciou de forma clara sobre a actuação do PGR, sobre o PEC, sobre os "fait divers" que vão assolando a actual cena política nacional, sobre as relações entre a Presidência e o Primeiro-Ministro, ou, usando as suas palavras, para não ter que falar no demo, o Governo.

A campanha de candidatura a um segundo mandato de Cavaco Silva teve início na semana passada, quando abriu ao povo português as portas da sua casa de "pater familiae" de classe média, na Travessa do Possolo, e do Palácio de Belém. Continuou com esta entrevista, em que fez questão de ir reafirmando a sua independência e equidistância dos partidos políticos e o seu papel enquanto baluarte da estabilidade nacional. Ou seja, assumiu de vez o epíteto de "homem do leme", que em tempos lhe atribuíram, que surge como nos filmes, vindo do meio da tormenta, contra ventos e marés, conduzindo a nau a porto seguro. Manuel Alegre e Fernando Nobre avançaram já com a intenção de se candidatarem à Presidência da República, a corrida está lançada, e Cavaco Silva apressa-se a entrar nela, de modo subtil (ou nem tanto), aproveitando a condição privilegiada que a sua posição lhe confere.
Nos tempos difíceis que atravessamos, queremos, ou pelo menos quero eu, que os políticos, todos eles e, por maioria de razão, o Presidente da República, deixem por uma vez de lado os habituais rodriguinhos e jogos de bastidores, que assumam com clareza e frontalidade o seu papel nesta crise, que nos transmitam algum conforto e esperança. Meias-palavras, meias-verdades, ao serviço de agendas políticas próprias, não me transmitem nem uma coisa nem outra, e a entrevista de ontem foi apenas, e de novo, mais do mesmo.


O PEC esteve esta semana na berlinda. Entre as muitas medidas desta versão do documento (da encapotada subida de impostos, do apertar do cinto da classe média a querer fazer querer que desta vez é que os ricos vão pagar a crise), que como disse o Presidente da República para não dizer nada, não é ainda a final, encontra-se a intenção do Governo de alienar grossa fatia do património público, incluindo a privatização de algumas empresas estatais.

Ninguém mais do que eu defende o liberalismo económico, a diminuição da intervenção do estado no tecido empresarial, o fim de algumas "golden shares" que vão servindo como incerta espada de Demócles, ao serviço do capricho de cada Governo que se sucede. Por outro lado, creio que determinados sectores empresariais, nomeadamente na área da energia, estratégicos para o desenvolvimento nacional, não devem de todo cair na mãos de privados.

O que vejo no entanto é que este Governo, na ânsia de conseguir a todo o custo a diminuição do défice das contas públicas e da taxa de inflação, se propõe vender boa parte daquilo que é património de todos nós. Nada de novo, nada que anteriores governos não tenham já feito. Mas fico a pensar numa coisa: ainda que ultrapassemos mais esta crise, lá para 2013 ou 2014, certamente outras se lhe seguirão, pois se alguma lição devemos retirar da História é que as crises económicas e financeiras são cíclicas, agravadas nos nossos dias por uma crescente globalização dos mercados. O que vai então suceder? O que farão os futuros governos a quem couber a solução dessas crises, quando já não houver empresas públicas para vender, património para alienar? É que nestas coisas, vão-se os anéis e os dedos, hipotecando de forma irreversível a nossa margem de manobra futura. Ou será que foi definitivamente aceite que o último a sair é que apaga a luz?
.
.
Adenda: já me vai causando comichões a conversa de que a Grécia está pior do que Portugal. Estamos mal, mas a Grécia está pior. Que raio de argumento, político ou económico, é este ? Devo sentir algum tipo de gratidão por alguém estar pior do que eu? Deverá isso servir-me de consolo? Com o mal dos outros, posso eu bem! Tratem é de fazer com que eu fique melhor!

terça-feira, 9 de março de 2010

Nacional-facilitismo


Como gosto de estar por dentro do que vai acontecendo no país e no mundo, a minha página de abertura da Internet é o "Google News". Um destes dias, ao ligar o computador e ao passar os olhos pelas parangonas, deparei-me com a seguinte notícia:

"Crianças já podem estudar pelo telemóvel: Porto Editora disponibiliza resumos de obras de autores portugueses nos telemóveis e lança versão mobile do site.
Ouça quando não puder ler, leia quando não puder ouvir». É com esta proposta que a Porto Editora disponibiliza análises e resumos de obras literárias portuguesas nos telemóveis dos estudantes.
O objectivo da editora é proporcionar o acesso aos seus conteúdos nos mais diversos suportes, pensando no conforto e nos estilos de vida das pessoas."

Sabemos todos da dificuldade que é tentar que as nossas crianças leiam. Sou pai, sei bem do que falo: apesar de possuir um acervo literário de algumas centenas de livros e de tanto eu como a minha mulher lermos diariamente, não consigo despertar no meu filho o mesmo interesse. Eu até entendo: na minha infância não havia televisão, Internet, Playstation, telemóveis. Restavam-me as brincadeiras de rua, outra espécie em vias de extinção, e a leitura, único meio de dar asas à imaginação. E caramba, como ela voava, primeiro com as fábulas de La Fontaine, os contos de Hans Christian Andersen, mais tarde com as histórias de Salgari, de Verne, de Enid Blyton, fechando os olhos fui de tudo um pouco: príncipe, pirata, soldado, astronauta, detective.

Mais tarde, já no secundário, foram de leitura obrigatória algumas das maiores obras da literatura portuguesa, alguns dos vultos maiores das nossas letras: Gil Vicente, Camões, Garrett, Herculano, Bernardim Ribeiro, António Vieira, Cesário Verde, Aquilino. As obras e autores foram variando, ao sabor do capricho de cada novo Ministro da Educação, de cada nova experiência pedagógica em que os anos 70 e 80 foram férteis. Nesses anos, como hoje, era comum ser-nos pedido que resumíssemos as obras lidas, ou que dissertássemos sobre este ou aquele aspecto das mesmas. Para isso, e na quase ausência de obras comentadas ou resumidas, tornava-se necessária a sua leitura integral e muitas horas de biblioteca, em pesquisa diversa.

Depois, para o melhor e para o pior, chegou a Internet: resumos, comentários, notas, biografias, tudo ao alcance de um clique. A ferramenta de excepção que temos a fortuna de poder usufruir é, na maioria dos casos, usada de modo errado, com a complacência dos professores. E que se não pense que isto é exclusivo do secundário, porque, e falo com conhecimento de causa, o mesmo se passa no ensino superior. Inserida a palavra de pesquisa apropriada, seja qual for o assunto, qualquer motor de busca nos apresenta mil e uma páginas sobre o mesmo. E vai de copiar e colar, sem verificar se a fonte é fidedigna ou não, se o português é do Brasil ou de Portugal. E volto a frisar que isto se passa com conhecimento dos professores, pois não acredito não conheçam o suficiente os seus alunos para não saberem se o trabalho é ou não da sua lavra. Mal seria se a educação em Portugal já tivesse chegado a esse ponto. Porque aceitam então trabalhos totalmente copiados? Porque não os recusam e pedem aos alunos que os façam de novo? Por medo? Por preguiça? Por desinteresse? Sei que não é fácil, nos dias que correm, ser professor. Mas creio também que alguns dos professores de hoje o são não por vocação mas sim por carreirismo, em busca de tacho e futuro certo (embora no caso dos professores isto quase pareça ironia) na Função Pública.

Vem agora uma editora e disponibiliza conteúdos nos telemóveis, segundo afirma, para que as crianças possam estudar usando essa tecnologia. Estudar pelo telemóvel? Alguém de bom senso acredita nisto? Ou não será esta mais uma maneira de copiarem, inclusive durante os testes, algo que já é frequente, mas que ainda dá algum trabalho?

Gostando do toque do papel, do cheiro dos livros antigos, nada tenho contra os chamados livros digitais e quejandos. Antes pelo contrário: sou decididamente a favor de novas tecnologias que levem os livros ao maior número possível de leitores. O que não sou é a favor do facilitismo que vai campeando por aí, do nivelar por baixo, num processo em que nos querem convencer, e aos nossos filhos, que tudo é simplesmente entregue de mão beijada, não os preparando para a competitividade do mercado de trabalho e da vida em todos os seus aspectos.

Em resultado disto, é cada vez mais norma do que excepção encontrar licenciados que não se sabem expressar correctamente na sua língua, com uma cultura geral de uma pobreza franciscana, incapazes de utilizar os conhecimentos que têm quando postos perante situações inesperadas, frequentemente muito bons numa área muito específica do saber e completamente ignorantes a respeito de tudo o resto.

domingo, 7 de março de 2010

Fogueira de vaidades


Se há algo que caracteriza a arte é a sua subjectividade: nenhum de nós, artista ou público, percebe do mesmo modo seja que tipo de intervenção artística for. Ou no dizer do povo, “que seria do amarelo se todos gostassem do azul”.
Vem isto a propósito do documentário “Enxoval”, que ontem visionei na RTP2, um documentário de Kitty Oliveira, Pedro Macedo e Isabel Freire, sobre o processo de construção da obra “Valquíria Enxoval”, da artista plástica Joana Vasconcelos.
Gostei mais da parte inicial, mais intimista, com a Ti Rosário, do Cacheiro, mas no geral considero o documentário interessante, com imagens de grande valor estético.
O mesmo, confesso, não posso dizer das produções artísticas de Joana Vasconcelos, que não me dão aquele arrepio na espinha quando se me apresenta algo que, pela minha bitola, é de facto verdadeiramente inovador e grandioso.
A arte não é imune a modismos. E Joana Vasconcelos está na moda, levada ao colo pela comunicação social e pelos fazedores de opinião. Nestas coisas da arte, como em outras, “vale mais cair em graça do que ser engraçado”. Entendo o plano conceptual das suas obras, a sua linha estética, mas de modo puramente cerebral, quando a arte, nas suas múltiplas formas, deve ser recebida de forma visceral. Pelo menos comigo é assim que funciona: ou sinto o tal arrepio na espinha ou a coisa já lá não vai.
Com a melhor das intenções, estou certo, a Câmara Municipal de Nisa, embarcou na visão de Joana Vasconcelos e financiou a sua peça “Valquíria Enxoval” e este documentário. O objectivo seria, creio eu, mais do que revitalizar o artesanato de Nisa, promover a imagem do Concelho no país e fora dele.
Esta financiamento do Município, por aquilo que pude saber consultando documentação oficial disponível na Internet, terá ascendido a 29.200,00€, sendo o restante valor da obra, no valor de 50.800,00€, coberto por uma candidatura ao POA-FEDER. Desconheço se este valor cobre também a produção do documentário, ou se para isso houve outra dotação orçamental.
A questão do financiamento é para mim pacífica: os municípios têm obrigações na área da cultura, como em outras, que não podem ser esquecidas. Mas em época de contenção financeira, em que a realização de tantas outras coisas está a ser posta em causa, terá este apoio sido sensato?
Costumo eu dizer que as coisas podem ser ou caras ou custarem muito dinheiro. Se, por exemplo, me deslocar a um restaurante sem instalações, ementa ou serviço de qualidade e me pedirem 30 euros por uma refeição, isso é caro. Mas se instalações, ementa e serviço tiverem qualidade, isso é apenas muito dinheiro, pelo menos para mim que não sou rico. Ou seja, tudo se resume à existência de uma relação custo/benefício equilibrada, tendo em consideração o serviço, produto ou objectivo que se pretenda atingir ou adquirir.
Qual o objectivo da Câmara Municipal de Nisa ao financiar este projecto? Já aqui referi que presumo ter sido promover o concelho de Nisa. Conhecemos assim objectivo e custo. E o benefício?
Em que medida contribui para a promoção do Concelho a exibição de uma peça de arte, que supostamente até deveria estar no Núcleo Central do Museu do Bordado e do Barro (embora eu não consiga vislumbrar muito bem onde, dadas as suas dimensões), no Complexo Termal da Fadagosa de Nisa? Perdoem-me a pergunta, mas não seria melhor divulgado o nosso artesanato se nesse local existisse uma exposição permanente do mesmo e, porque não, a sua venda?
Em que medida contribui para a promoção do Concelho de Nisa a exibição do documentário no sábado passado, na RTP2, com um “share” de audiência de 3,5%, o que o coloca no 39º lugar dos programas mais vistos nesse dia? Ou a sua exibição, em seis dias nos meses de Março, Abril e Maio, no Auditório do Museu Colecção Berardo? Ou a sua exibição no Cine Teatro de Nisa, no dia 18 de Abril, integrado no Festival de Cinema Documental promovido pela INIJOVEM? A quantos cidadãos portugueses ou estrangeiros vai chegar a mensagem? Em quantos vai despertar o desejo de visitar Nisa?
Sei que são muitas perguntas, mas parecem-me legítimas. Em minha opinião, a Câmara Municipal de Nisa embarcou num projecto elitista, de retorno incerto e insignificante, mas consentâneo com uma certa onda “gourmet” que parece varrer o nosso país. E Joana Vasconcelos sai desta fogueira de vaidades como a maior, se não única, beneficiada.
.
.
Adenda: mais uma vez recebi comentários, uns lisonjeiros, outros nem tanto e não publiquei nenhum. De novo informo que não público comentários anónimos ou escritos sob pseudónimo. Do mesmo modo não publico comentários com linguagem ofensiva.