quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eu hei-de amar uma pedra.III


Coisas de pedra com alma, porque fluiram de mãos de gente,
para serem úteis ou belas ou ambas as coisas
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título do post: inspirado no título da obra homónima de Lobo Antunes
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texto/foto: josé carlos (açude de xisto - Monte do Feijó, Montalvão, Nisa)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A Marcel Marceau



As mãos agitam-se, rodopiam
em jeito de asa, em jeito de onda
sobem no vazio, fundo negro
em girândolas de emoções
o rosto ilumina-se, ganha vida
numa luz de sóis
flor que desabrocha
em pétalas de riso
as mãos pendem
o olhar escurece
fecha-se o pano
apagam-se as luzes da ribalta
mas não é o fim
o espectáculo continua
numa memória dentro de mim
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imagem: daqui
texto: josé carlos

Eu hei-de amar uma pedra.II


Coisas de pedra com alma, porque fluiram de mãos de
gente, para serem úteis ou belas ou ambas as coisas

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título do post: inspirado no título da obra homónima de Lobo Antunes
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texto/foto: josé carlos (abrigo de pastor - zona do Monte do Feijó, Montalvão, Nisa)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Eu hei-de amar uma pedra.I

Coisas de pedra com alma, porque fluiram de mãos de
gente, para serem úteis ou belas ou ambas as coisas

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título do post: inspirado no título da obra homónima de Lobo Antunes

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texto/foto: josé carlos (sepultura megalítica - Arez, Nisa)


quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Sou fazedor de frases




Sou fazedor de frases
fazedor de pontes
palavra pedra talhada
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texto/foto: josé carlos

Fui à fonte



Fui à fonte beber água,
Bebi, tornei a beber;
'Stava o meu amor de frente
Muito gostei de o ver!

Fui à fonte beber água,
Achei um ramo de flores,
Quem no perdeu tinha sede,
Quem no achou tinha amores.

Fostes à fonte descalça,
Só p'ra te verem os pés;
Em manguinhaas de camisa,
Co'os dedos cheios de anés.

Fui à fonte dos amores
Dar a mão à lealdade;
Enchi o pote de rosas
Fiz a rodilha de cravos.
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Fui à fonte beber água,
Bebi, tornei a beber;
Minha boca não se enfada
Nem meus olhos de te ver.
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poemas: cancioneiro popular de nisa, in "CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS", J. Leite de Vasconcelos, vol. I, 1975, p. 411; 421; 581/3, vol. II, 1979, p. 224-/7
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foto: josé carlos
O rapaz chegou do mundo dos sonhos numa barca de frio e sono, a voz do pai a chamá-lo, bamos lá a lebantar que já são horas, de manhã é que se começa o dia e ainda é preciso carregar a burra. Lavou a cara na bacia de esmalte, a água como lâminas, ferindo-lhe a face imberbe. Migou o pão de rolão para a malga de café de cevada ralo, e outra vez o pai, vê se cinchas bem a burra e pões a carga a jeito de não cair, ainda tens muito que andar hoje.
Era ainda escuro lá fora, e se houvesse relógio lá em casa veria que era cinco horas da manhã.

Saiu para a rua calcando o codo que estalava debaixo dos tamancos e dirigiu-se à loja, para cinchar a burra e arrumar a carrada de tapetes e mantas de trapo que a mãe tinha tecido, num pam-pam de madeiras de tear a bater pela noite dentro, à luz da candeia de azeite.

Bais para o lado da Régua, que eu bou pra Crasto Daire, dizia-lhe o pai, num te esqueças de ir à Quinta da Pacheca, que da última bez que lá estibe a senhora pediu-me pra lhe lebar tapetes quando por lá fosse outra bez.

Abalou caminho abaixo, mãos enregeladas, em cuidados de equilibrista para não escorregar no gelo, ao lado da burra, e assim seria a jornada toda se lhe não aliviasse a carga com as vendas que fosse fazendo.

Partia para quinze dias, a bater quintas e aldeias entre Lamego, Régua, e Santa Marta de Penaguião, saco de chita a tiracolo com um naco de pão, uma mão cheia de figos secos e outra de azeitonas para os primeiros dias, para os restantes teria que vender alguma coisa antes de poder comprar mais pão e azeitonas, talvez um naco de toucinho, se a venda corresse bem. A dormida seria onde lhe dessem abrigo, em qualquer loja, com sorte talvez houvesse palha fresca onde se acostar.

Escrevi esta estória numa tarde em que surpreendi o meu filho a deitar para o caixote do lixo metade de uma sanduiche. Incomoda-me o desperdício, muito mais quando esse desperdício é de comida. E para que ele entendesse que isso me incomoda e as razões desse incómodo, imprimi a estória numa folha A3 e colei-lha na porta do quarto.

As personagens desta estória têm nome: o rapaz chama-se António e o pai Manuel. São o meu pai e o meu avô paterno, já falecido. Com 10 ou 11 anos de idade, ao sair da Escola Primária, foram assim muitos dos dias do meu pai. Dias de frio e névoa, dias em que a sopa era de urtigas, porque não havia couves, em que sozinho tinha que calcorrear cento e muitos quilómetros vendendo tapetes e mantas de trapo que as mulheres da casa teciam, único meio de subsistência para quem não tinha um palmo de terra a que chamar seu. Era isso ou a jorna para qualquer lavrador de posses ou para as quintas do Douro, durante as vindimas ou a apanha da azeitona, a troco de dez réis de mel coado e de uma sardinha e um naco de broa ao almoço. Tempo duros, tempos que tanto o meu avô Manuel como o meu pai fizeram questão de me descrever.
Acho que o meu filho entendeu o recado.

Glossário:

Pão de rolão: pão confeccionado a partir do rolão, a parte mais grossa da farinha de trigo, mas superior ao farelo;
Malga: tigela;
Loja: piso térreo, onde se guarda o gado, as colheitas e as alfaias agrícola;
Cinchar: apertar a cincha ou cilha, correia larga ou faixa de tecido forte, fios torcidos, couro cru ou sola, e até de borracha entelada, que passa sob a barriga, para segurar a sela ou a carga dos animais;
Codo: gelo grosso, resultante da acção das geadas;
Tamancos: calçado rústico, de couro grosseiro e sola de madeira;
Jorna: trabalho temporário em que o salário é diário.
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imagem: sleekfreak

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Aquilino



A transladação para o Panteão Nacional está consumada. Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram fazer companhia aos de Guerra Junqueiro, Almeida Garrett e João de Deus, também escritores, aos de Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, respectivamente 1º, 2º, 4º e 10º Presidentes da República, Humberto Delgado, general e Amália Rodrigues, fadista. Insígne companhia.

Houve polémica, concerteza. Esteve ou não Aquilino envolvido no regicídio de D. Carlos, porque é que Torga ou Sophia de Mello Breyner não têm a mesma honra, que "pressões" levaram à tomada desta decisão. Isto de agradar a gregos e troianos, não há quem.

E que tenho eu a ver com isto? Concordo ou não concordo?

Estou-me pouco borrifando! A crise mói, não há trabalho, a Selecção de râguebi tem garra, a de futebol não, a Marisa vende discos lá fora, estão a pôr os bandidos fora das cadeias, deixaram fugir os ingleses que mataram a miúda, a novela das oito é boa, os políticos são todos iguais. A isto se resume a "vox populi", numa inércia de dar dó!

Estou farto de pão (cada vez menos e agora, numa "simplex" modernidade, substituido por computadores portáteis) e circo, de plumas e lantejoulas, deste suave embalar em que o povo português ovinamente dormita.

Enquanto isto, a obra de Aquilino vê-se relegada para plano secundário, com apenas três contos a fazerem parte dos currículos do 3º Ciclo do Ensino Básico, nos 5º, 6º e 9º anos e mesmo assim como obras opcionais. No Secundário, quem já conhecer Aquilino conhece, quem não conhecer que conhecesse! E tomem lá mais um mausoléu de mármore, uma fanfarra e soldadinhos de chumbo, meia dúzia de palavras ditas ao vento, fechamos assim o negócio, entre palmadas nas costas e memórias apaziguadas. Bibá coltura pá!

E raios me partam se o Aquilino não quereria antes que lhe lessem a porra dos livros e lhe deixassem os ossos em paz, de preferência numa qualquer serra das "Terras do Demo"!!
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foto: couramagazinefoto

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Hora do interior


Fica bem a qualquer Primeiro-Ministro aproveitar uma vernissage propagandística do interior, depois de distribuir mais uns computadores portáteis, para anunciar benefícios fiscais, mesmo que estes tenham pouco impacto, ou que este só se faça sentir daqui a meia-dúzia de anos.

Para as empresas já constituídas, o aumento dos benefícios traduz-se em 5% do IRC, o tal imposto que poucos pagam, e para as empresas a constituir, que só apresentarão lucros uns quantos anos depois de estarem a funcionar, é que o benefício tem um aumento de 10%.

Isto é, Sócrates faz um figurão sem grande redução da carga fiscal. Foi uma pena que não tivesse divulgado qual o impacto desta medida no Orçamento de Estado.

O problema é que no interior do país, sentimos todos nós, estamos a ficar exangues de pessoas e de tudo o mais. Exige-se que Sócrates adopte medidas sérias para promover o desenvolvimento do tecido empresarial no interior do país e não se fique apenas pela espuma da propaganda.

É verdade que estamos cada vez mais pobres, mas não somos burros!
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Foto: inmagine