quarta-feira, 23 de julho de 2008

3 pensamentos 3



3 pensamentos 3, como nos cartazes das touradas, que o assunto que tais pensamentos fez brotar não passa de uma grandessíssima tourada, eu do lado do sol e os chicos-espertos do lado da sombra, tourada rasca de praça de terceira ou quarta categoria, com cavaleiros ainda de renome, gordos dos "cachets" de corridas antigas, que agora já só sabem voltear cavalos na cara dos toiros, em malabarismos de circo, sem valentia para ir ao cite, bandarilheiros trôpegos que escorregam no redondel e conhecem melhor o caminho para o refúgio das tábuas do que para o lado da besta, e forcados que já só pegam de cernelha, que o bicho resfolega tanto que assusta.

Pensamento 1 - Estamos a transformar-nos num país de merda, na inversa medida em que nos tornamos cada vez mais assépticos. Curiosa contradição esta, em que o perfumado sabonete do politicamente correcto se transmuta, por estranha e misteriosa alquimia, em fecais e mal-cheirosas atitudes, sempre precedidas de copiosa diarreia mental! O país, que se dizia de bravos, vai-se transformando numa massa acéfala e ovinamente obediente, porém muito polidinha e bem educadinha, que acha mal dizer preto, gordo, anão, deficiente, pobre, doido, velho, mulher a dias, contínuo, mentira (pérola de um dos deputados de cú que pululam no, cada vez menos, nosso parlamento, cujo nome não recordo, mas cuja tirada não esqueço, referindo-se às afirmações de um seu par: "- O que o Sr. acaba de dizer é uma inverdade!"), et coetera ad nauseum. Prefere-se a forma ao conteúdo, o supérfluo ao essencial, o artifício à realidade. Os bois chamam-se pelos nomes!

Pensamento 2 - Que dívida tem este país para com Angola? Moral ou de outro tipo? Os meus tacanhos dois neurónios, não conseguem entender porque que raio sucessivos governos, tanto da pseudo-esquerda como da dita direita, servilmente baixam a calcinha e oferecem a nádega, apenas o pessoal do Palácio da Cidade Alta levanta o sobrolho. Se se trata de um serôdio complexo de culpa, que eu não partilho nem tomo como minha dor, que nunca em nada prejudiquei ou explorei angolano algum, estamos perante um grave equívoco histórico. Porque não vaiar os Alemães na rua porque um dia foram governados por Adolf Hitler, apupar os Russos por causa do Stalin ou apedrejar os Muçulmanos por conta dos crimes de Bin Laden? E já agora, que singular precisão cirúrgica é esta, que não tem o mesmo tipo de complexo em relação a Moçambique, Cabo Verbe, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor? As actuais gerações, na minha modesta e certamente, na opinião de alguns, errada convicção, não devem nada a porcaria de governo de país nenhum, muito menos quando esses governos são corruptos e continuam a oprimir e a explorar os seus próprios povos, mantendo-os num degradante estado de sub-desenvolvimento, enquanto vivem vidas de nababo.

Pensamento 3 - Se eu tivesse assentado arraiais frente ao edifício da Câmara Municipal de Loures, estou certo que na manhã seguinte, ou se calhar nesse próprio dia, seria expulso do local, sem apelo nem agravo, e não seria nem parangona de jornal nem notícia de abertura de pasquim televisivo. Mas o pessoal que por lá acampou é cigano. E expulsar ciganos, ou pretos (pretos sim, e não essa treta do politicamente correcto, negros! Pretos do mesmo modo que eu sou branco. Já agora, e para que conste, ofende-me que, com este bronzeado alentejano, me tratem assim, porque dá a ideia que estou tuberculoso ou subnutrido) ou homossexuais, ou toxicodependentes, ou alcoólicos, ou deficientes ou seja lá que grupo minoritário for, é nos primeiros casos racismo, e nos últimos discriminação! Mas como sou da maioria branca, tenho as costas largas e sou pau para toda a colher: é comer, pagar e calar! Quem me conhece sabe que não sou nem racista nem homofóbico nem anti seja que grupo minoritário for. Mas não me lixem: diz a Constituição desta República, em vias de se transformar em fértil bananal, que ninguém pode ser discriminado, não diz que as minorias estão isentas do cumprimento da Lei e da mão, supostamente longa, da mesma. Vemos em todos os Tribunais, um dos Órgãos de Soberania que a dita Constituição consagra, uma frase em Latim - "Dura Lex, Sed Lex" - e uma imagem alegórica - uma figura feminina, de olhos vendados, que numa mão segura uma balança e na outra uma espada. A Lei será durá, mas é a Lei, tem que ser cumprida, e a Justiça, cega, pesa as acções e administra o castigo. Mas por estes dias, a Lei vai sendo adaptada às conveniências e a Justiça já espreita por debaixo da venda, para se necessário viciar a balança e embainhar a espada.
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imagem: daqui

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Dúvidas...



A quem possa interessar, porque isto é tanto ministério, tanta secretaria de estado e tanta direcção-geral, que um homem fica à nora, quando tem que decidir a quem endereçar reclamações:


- O meu vizinho do lado, que diz que eu abri túneis da minha horta para a dele, com o fim de para aí desviar as toupeiras que me comem as cenouras, ameaça dar-me um tiro de caçadeira no, e passo a citar, focinho. Tenho direito a que a Câmara me realoje noutra casa??


- O meu negócio umas vezes dá prejuízo outras dá lucro, consoante há mais ou menos clientes. É mais ao menos assim como os pescadores quando há temporal ou não, ou como os agricultures quando cai geada ou não. Tenho direito a um subsídio??


- O meu negócio tem custos energéticos muito elevados (aquecimento de águas, ar condicionado, etç...) e o preço do petróleo não pára de subir. Se bloquear a minha rua ao trânsito começo a pagar o gás mais barato??


- Tenho um empréstimo de um banco cujo nome omito. O raio dos juros não param de subir e estou a ficar com prestações em atraso. Se eu me tornar accionista do banco será que me perdoam a dívida??


Obrigado pela atenção e desculpem qualquer coisinha.
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imagem: daqui

sexta-feira, 11 de julho de 2008

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"Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral(...)"
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excerto de "Pedra Filosofal",
por António Gedeão,
In Movimento Perpétuo, 1956


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foto: José Carlos (pormenor de coluna da Fonte da Pipa, Nisa)




"Os alcatruzes da nora
Andam sempre a dar e dar,
É para dentro e pra fora
E não sabem acabar."



(Os alcatruzes da nora)
por Fernando Pessoa

foto: José Carlos



"I stand here in my place,
With my foot on the rock below,
And whichever way it may blow,
I meet it face to face,
As a brave man meets his foe."



Henry Wadsworth Longfellow (1807 – 1882)

foto: José Carlos

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Há pessoas e Pessoa

Primeiro, os pontos nos ii: cresci numa família Católica Apostólica Romana. Quando ingressei na Escola, no então chamado Ensino Primário, por cima do quadro negro, entre Salazar primeiro, depois Marcelo, e Américo Thomaz, estava um crucifixo, coisa estranha, num país que a Constituição, mesmo a de então e após a Concordata, dizia ser laico.
Recebi todos os sacramentos (excepto o da Ordem e o da Unção dos Enfermos , lagarto, lagarto, lagarto...): Baptismo, Confirmação, Eucaristia e Comunhão, Confissão e Matrimónio.
Ao longo do meu processo de crescimento, fui evoluindo (no sentido puramente científico da palavra, sem juízos de valor) de católico ignorante e passivo a católico esclarecido e praticante, para desembocar no que hoje, em termos de fé, sou: agnóstico.
Quando comecei a ser gente e a pensar pela minha própria cabeça, fui atraído e seduzido pela mensagem dos Evangelhos, para depois ser repelido pelas incongruências da Igreja, pela contradição entre a Palavra e a praxis.
Mesmo na época em que era crente, certas coisas ficavam-me atravessadas na garganta, nomeadamente a questão em torno das aparições de Fátima (e já agora tantas outras aparições por esse mundo fora...). Fui a Fátima em pregrinação, acompanhando os meus pais, apenas uma vez. E prometi a mim próprio nunca mais lá voltar.
E vamos agora ao porquê do título da postagem.
Esta manhã, logo que liguei a televisão, sintonizando a SIC Notícias, chamou-me a atenção uma notícia em particular: uma peça sobre um inédito de Fernando Pessoa, que agora chega a público, pela mão do historiador e investigador José Barreto, sobre a temática de Fátima.
Reproduzo-o aqui, com a devida vénia ao Escritor, que passou do pensamento às palavras, melhor do que eu o faria, aquilo que me vai na alma:
"Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa.
Nesse lugar - esse ou o outro - ou perto de qualquer d'elles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora (...). Assim diz a voz do povo da provincia e a 'A Voz' (jornal católico e monárquico) sem povo de Lisboa.
Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e 'A Voz' da cidade de ha muito substituíram aquelas velharias democraticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado".
"O facto é que ha em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Ha curas maravilhosas, a preços mais em conta.
O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto gaudio místico da parte dos hoteis, estalagens e outro comércio d'esses jeitos - o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo - não vão eles lembrar-se de o seguir!"