
Contráriamente ao que é meu hábito, o mote para este texto chega-me de uma resposta de LuisaH a um post da Chuinga. Dizia a Chuinga que votará Soares. Eu respondi que não me vejo a engolir saponossauros, que estou zangado e que me preparo para votar em branco. Respondeu LuisaH: "Votar em branco é democracia, mas também anti-democracia. Se não o querem para PR votem noutro que achem melhor.... se forem todos votar em branco porque não acham bem, ainda ganha algum Carapau de Corridas, só com meia-dúzia de votos... Assino assumida: LuisaH"
Eu também assumo: não, não quero Mário Soares para Presidente da minha República! Votar noutro por o achar melhor seria votar pela negativa e isso não faço. O voto útil obrigar-me-ia a não votar de acordo com os meus ideiais, com as minhas convicções mais profundas e, no futuro, que argumentos teria eu para poder criticar alguém eleito com a minha anuência, a troco da fuga para um mal menor? E não há carapaus nesta corrida (pelo menos por enquanto) que me façam mudar de ideias.
Perante este cenário tenho três hipóteses: abster-me, anular o voto ou votar em branco. As duas primeiras hipóteses são meramente académicas. Nunca me passaria pela cabeça abdicar do que é um direito e um dever constitucional e muito menos o baixo acto de cidadania que seria anular um boletim de voto - quanto mais não fosse por respeito por todos aqueles que lutaram, sofreram e morreram para que eu hoje possa aqui estar a discorrer livremente sobre este tema e ter o direito de votar.
Resta-me assim o voto em branco e dele diz LuisaH que tal acto é democrático e anti-democrático.
Anti-democrático o voto em branco?
Só poderia aceitar esta tese se ela tivesse como argumento o facto de este acto impedir o normal funcionamento da democracia. Mas impedi-lo-á?
Não sou constitucionalista, mas creio que tal só sucediria se acontecesse o cenário surreal de todos os votantes votarem em branco. Como este cenário é irrealizável, então a tese cai pela base.
É precisamente a democracia que me concede o direito de votar em branco, é uma alternativa que me assiste, que posso e devo executar se me não reconhecer em nenhuma das opções, ideológicas, partidárias ou fulanizadas, como será o caso das próximas presidenciais.
Posso conceder que se trata de uma atitude minante, subversiva até, mas o objectivo é precisamente esse.
Entretanto outra questão se levanta: que significado tem o voto em branco quando as contas estiverem feitas e o trono ocupado?
Deixará alguém de ser eleito por força do meu voto em branco? Certamente que não, o país continuará a trilhar o seu rumo, a classe que nos dirige continuará a renovar-se na continuidade, a perpetuar vícios. Mas e se fossemos muitos, largos milhares?
Diáriamente criticamos o poder. Este ou o que o antecedeu. E o poder continua a defraudar-nos, a classe política que temos está desacreditada mas continuamos a eleger autarcas, deputados, presidentes, sem nunca dizer basta.
O meu voto em branco é esse basta! E se muitos disserem basta! talvez o poder repare em nós e se apresse a fazer algo.
Utópico? Talvez. Mas decididamente de cara levantada e consciência tranquila!
.
imagem: inmagine