quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Deambulâncias II - Rotas de Transumância

Serra da Freita - Arouca
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Seguimos por trilhos velhos e gastos, trilhos que mil pés calcorrearam antes de nós, ao longo dos séculos. Por aqui passavam caminhos que ligavam o litoral ao interior, a Beira-Litoral à Beira-Alta e a Trás-os-Montes. Por aqui passaram almocreves de bestas carregadas, cajado acerado e pistola carregada para o que desse e viesse, lobos ou homens. Por aqui se cruzavam as rotas da transumância do gado. Por aqui passou muito provavelmente o meu bisavô Custódio em busca de pastagens e tempo mais ameno, que o Inverno nas serras de Montemuro e Meadas era duro e a erva escassa. E acabou transumando gado e genes, que uns meses seguidos de chuva, frio e solidão, longe do aconchego da mulher o levaram em busca de outro colo onde repousar. Acabou tendo duas famílias: uma na Beira-Alta e outra na Beira-Baixa. Um dia, a minha bisavó Maria suspeitou ou alguém lhe contou. Pôs-se ao caminho, ao mesmo caminho ermo e perigoso que faziam os homens, para buscar o seu homem. Chegada à terra da outra, perguntou onde morava o Custódio. Logo gente prestimosa lhe indicou a casa de granito e telhado de xisto onde vivia meu bisavô com a sua outra família. Na terra ninguém suspeitava da vida paralela do pastor, homem de fartos rebanhos e valentia. Minha bisavó bateu à porta e acudiu a dona. Do que foi dito e respondido a seguir nada sei. Para a história da família ficou que a dona da casa correu a esconder-se debaixo da cama adúltera, que a bisavó Maria lhe agarrou numa mão e lhe arrancou um dedo à dentada. Confirmei este facto com a minha avó Margarida, que já adolescente à época se recordava de tudo.
Como acabou a estória? A família da senhora enganada pôs o meu bisavô na mira das escopetas e acabou por ser o meu tio-avô Manuel a ter que casar com a donzela enganada para resgatar a honra da família sem derramamento de sangue. A Ti Maria e o Ti Custódio? Regressaram ambos a casa nesse mesmo dia e nunca mais o meu bisavô percorreu as rotas da transumância.
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foto: josé carlos

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Deambulâncias - I

Regato - Serra da Freita - Arouca


Frecha da Mizarela (a maior queda de água de Portugal) - Serra da Freita - Arouca


Os dias continuam a passar lentos, só que agora se recolhe mais cedo o sol e a chuva finalmente cai.
Este apararente abandono das lides bloguistas já me mereceu uns puxões de orelhas de alguns dos meus amigos ("- Isso é maneira de tratar um Blog?" - dizia-me o
Carlos Gil). Têm razão amigos, carradas, paletes de razão.
Mas senti a necessidade de parar por uns tempos, não só a minha actividade no blog, mas também a minha participação noutros meios virtuais. Saturei-me de hipocrisia, banhei-me nela dias a fio, num incessante rodopiar de palmadinhas nas costas seguidas da proverbial punhalada, discussões fúteis, conversas sérias cedo envenenadas por cegueiras extremistas a bescambar para o insulto pessoal.
Sinceramente, FARTEI-ME! E como sempre ouvi dizer que "quem não está bem que se mude" foi exactamente o que fiz: afastei-me.
Não deixei de escrever, de retratar o que vejo e sinto. Não, apenas deixei de o fazer no teclado e voltei ao lápis e papel.
E fui fazer o que mais gosto: calcorrear as serras e planícies deste meu país, subir uma montanha apenas porque ela lá está, sentar-me no cume e encher os olhos de beleza e tranquilidade, percorrer o leito seco de um ribeiro, deitar-me na areia quente e não ouvir vozes de gente nem roncar de máquinas.
Acordar o meu filho às 07.00, pegar nas mochilas e no farnel e passar umas horas pendurado num penhasco a ver o soberano voo dos grifos.
Dessas deambulâncias ficaram fotografias e escritos. Por aí recomeço. De alma lavada.

fotos: josé carlos